Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Ante-estreia (1) - Júlio Resende

(fotos: Manuel Jorge Veloso)

 

Um sonho maior do que o próprio mundo

 

É nas curtas linhas que escreveu para o encarte do seu primeiro álbum dA Almacujo lançamento se realizou nas Lux Jazz Sessions da passada quarta-feira (24.10.07)  - que o pianista Júlio Resende nos fala de «sonhos maiores do que o próprio mundo», seguramente aqueles que um jovem músico alimenta no início da sua carreira profissional e, acima de tudo, na altura da publicação do seu primeiro disco, o suporte e a consagração por excelência da obra jazzística.

O cronista de O Sítio do Jazz esteve lá e, pela satisfação e alegria que se espelhavam nas faces dos músicos do quarteto, no final do set de apresentação do disco, parecia sem dúvida que os sonhos se haviam tornado realidade. E é essa a primeira nota positiva a reter da generosa sessão.

Do ponto de vista musical, o andar da noite e o progressivo aumento dos ruídos circundantes e dos decibéis das conversas mundanas não terão ajudado a que melhor se pudesse julgar da qualidade da música que o quarteto de Júlio Resende nos ofereceu. Mas o que estes ouvidos puderam então «adivinhar» veio a confirmar-se na audição mais recatada do disco e na paulatina descoberta dos seus meandros composicionais e de improvisação.

Hoje lançado a público nas discotecas de todo o país, aqui se dá conta das impressões positivas que o disco me causou, nesta primeira de uma série de ante-estreias que futuramente aqui terão os seus devidos relatos.

 

 

dA Alma

(Clean Feed / Trem Azul)

1. Filhos da Revolução; 2. Deep Blue; 3. Move It!; 4. dA Alma; 5. Wise Up; 6. Um Dia de Férias; 7. Jinha; 8. Ghost Dog.

 

Júlio Resende (piano); Alexandra Grimal e Zé Pedro Coelho (sax-tenores); João Custódio (contrabaixo); João Lobo e João Rijo (bateria).

 

 

 

Gostaria de começar por vos dizer que, ao referir as influências que tal ou tal músico possa parecer experimentar em relação a outras personalidades que julgo constituirem as suas referências modelares, é o lado positivo desta atitude (e não qualquer negativa reticência) que em geral me interessa realçar. Para ser mais claro, é o acerto e o bom gosto revelados por essas opções de inspiração (mais ou menos implícitas) que sobretudo aprecio, ao achar útil para o leitor sublinhar essas influências.  

Por exemplo, no que a este disco em concreto diz respeito, parece-me relativamente transparente que o jovem pianista Júlio Resende -  não só uma revelação mas já uma clara certeza na cena jazzíztica portuguesa  -, ao mesmo tempo que ainda procura, como é natural, uma linguagem e um caminho próprio, ensaia essa afirmação pessoal buscando alguns sinais de inspiração no mundo conceptual de um Brad Mehldau, por exemplo.

Entretanto, se uma tal tendência é susceptível de confirmação em peças como Deep Blue ou dA Alma, já outras peças deste disco se orientam em direcções diversas, privilegiando por um lado o uso de métricas irregulares mas também deixando-se entregar às batidas binárias da música funk e de outros espécimes da música popular urbana, como é o caso de Um Dia de Férias ou Ghost Dog.

Mas outros indícios extremamente interessantes e reveladores da procura de uma via pessoal se podem detectar em certas passagens deste primeiro opus de Júlio Resende.

Logo de início, por exemplo, Filhos da Revolução é-nos dada a ouvir como se de uma singela «canção de roda» se tratasse; e a própria introdução «marcial» no piano, pela subtileza deliberadamente titubeante com que é apresentada, sendo ainda passível de outras leituras, acaba por estar de acordo com a configuração geral da própria peça.

Por outro lado, mesmo que Deep Blue se enquadre, sem margem para dúvidas, na estrutura de um blues em 6/8, o certo é que alguns requebros «arabizantes» na sua linha melódica sugerem, a certa altura, a hipótese de estarmos perante o recorte de um fado (!), suscitando-se além do mais uma certa ilusão auditiva, ao parecer adivinharmos a presença (de facto apenas ilusória) de uma guitarra portuguesa...

Por último, um outro exemplo deste divertido gosto de Júlio Resende pelo efeito da ambiguidade e da surpresa parece-me patente em Move It!, sobretudo pela coabitação de secções temáticas ou improvisacionais de cariz totalmente diverso: a introdução free (só aparentemente deslocada) no piano, seguida da apresentação de um tema explícito e tonal mas exposto em duas direcções opostas (nas quais uma atmosfera agitada e jovial é entrecortada por uma passagem bopper, à boa maneira de Parker, fortemente swingada), sucedendo-se no plano solístico intervenções também elas divergentes, com Júlio Resende «grudado» ao sentido geral do tema e Alexandra Grimal a enveredar por uma improvisação relativamente livre em rubato até que, seguindo-se à intervenção mais contundente de Zé Pedro, a irrupção do piano pelo meio de uma pausa que parecia conclusiva nos reconduz à exposição do tema. 

No campo improvisacional, para além da desenvoltura do líder na competente exploração das potencialidades do piano, Zé Pedro Coelho revela-se o solista mais consistente, utilizando com hábil apropósito as passagem em tons inteiros, os harmónicos, a constante descentragem dos acordes de passagem e o intenso cromatismo como factores de modernidade e dando-se a ouvir, em geral, com uma sonoridade cool, lisa e sem vibrato, um pouco na linha de um Mark Turner, mas sem deixar de impor, quando necessário, uma impetuosidade emocional que contagia os restantes.

Alexandra Grimal constitui uma agradável surpresa e um útil complemento tímbrico na componente dos sopros, revelando-se o rotundo contrabaixo de João Custódio e (quanto à percussão) sobretudo a ágil bateria de João Lobo, dois suportes rítmicos essenciais.

Ao leitor-ouvinte fica o desafio à descoberta das restantes virtualidades e limitações desta primeira e prometedora obra discográfica.


 

Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 11:11
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